A 6ª Sessão Extraordinária da Câmara Municipal de Guarapari, realizada na tarde desta terça-feira (30), foi suspensa após divergências entre os parlamentares durante a discussão do Projeto de Lei nº 50/2026, de autoria do Poder Executivo, que dispõe sobre a elaboração da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para o exercício financeiro de 2027.
A LDO é responsável por estabelecer as metas e prioridades da administração pública para o ano seguinte, servindo como base para a elaboração da Lei Orçamentária Anual (LOA).
Antes da votação, a Prefeitura de Guarapari promoveu audiência pública para atender aos princípios da transparência e da participação popular previstos na legislação. Além disso, uma reunião foi realizada na Secretaria Municipal de Governo para discutir o projeto com vereadores, ocasião em que teriam sido debatidas supressões de artigos e a apresentação de algumas emendas.
Emendas provocam divergências
Já no início da sessão, o ambiente indicava dificuldades para a votação. Isso porque a vereadora Kamila Rocha (Mobiliza) e o vereador Vinicius Lino (PL) apresentariam emendas que, segundo parlamentares presentes, não haviam sido discutidas previamente com os demais membros da Casa.
A situação deu início a um intenso debate entre os vereadores sobre a conveniência de votar o projeto naquele momento ou promover um novo alinhamento antes da deliberação.
“Ninguém vai ser punido por usar a verdade”, afirma Wendel Lima
Durante a discussão, o vereador Wendel Lima defendeu que a votação fosse realizada, independentemente das divergências existentes.
“Ninguém vai ser punido por usar a verdade.”
Segundo o parlamentar, cada vereador deveria manifestar livremente sua posição sobre o projeto, favorável ou contrária.
Entretanto, o posicionamento não encontrou consenso entre os demais vereadores, que defenderam a necessidade de maior entendimento sobre o conteúdo das alterações antes da votação, além de não ser uma premissa do atual governo, que personaliza críticas e responde de forma inadequada.
Diante do impasse, a presidente da Câmara, Sabrina Astori, suspendeu a sessão e convidou os parlamentares para uma reunião reservada de alinhamento.
Falta de consenso entre Legislativo e Executivo
Além da audiência pública, vereadores relataram que houve uma reunião prévia na Secretaria de Governo para discutir o texto da LDO. Embora nem todos os parlamentares tenham participado, a expectativa era de que apenas pequenas alterações seriam apresentadas durante a votação.
Nos bastidores, contudo, parlamentares afirmaram que o entendimento construído anteriormente não teria sido suficientemente consolidado entre os representantes do Executivo, o que contribuiu para o impasse registrado em plenário.
Articulação política volta ao centro do debate
A suspensão da sessão reacendeu discussões sobre a articulação política do governo municipal junto ao Legislativo.
Até o momento, a gestão do prefeito Rodrigo Borges que soma 546 dias, ainda não definiu oficialmente um líder de governo na Câmara, função tradicionalmente responsável por intermediar o diálogo entre Executivo e vereadores durante a tramitação de matérias estratégicas.
Segundo relatos de parlamentares, durante a votação o próprio prefeito teria mantido contato com vereadores em busca de apoio para a aprovação da proposta.
Sem um consenso construído previamente, os parlamentares optaram por deixar o plenário, provocando a queda do quórum necessário para continuidade da sessão. A expectativa é de que o projeto retorne à pauta após novas rodadas de negociação entre Executivo e Legislativo.
Bastidores
Nos corredores da política municipal, vereadores e lideranças avaliam que uma articulação mais antecipada poderia ter evitado o adiamento da votação.
Entre os comentários de bastidores, há quem sustente que a ausência de uma liderança política formal no Legislativo tem dificultado a construção de consensos em torno de projetos considerados estratégicos para a administração municipal.
O episódio reforça a importância do diálogo permanente entre os Poderes e evidencia os desafios enfrentados pelo Executivo na condução de matérias de grande relevância, como a Lei de Diretrizes Orçamentárias, instrumento fundamental para o planejamento das ações e investimentos públicos do município.
Análise: quando falta liderança, sobra desgaste político
Se conselho fosse ouvido, muitos erros poderiam ser evitados.
A ausência de um líder de governo na Câmara e de um alinhamento político consistente entre o Executivo e sua base tem produzido desgastes que poderiam ser facilmente prevenidos por meio do diálogo e da articulação. O episódio envolvendo a votação da LDO é mais um exemplo de que projetos estratégicos não podem chegar ao plenário sem que haja entendimento prévio entre os atores políticos.
Nos bastidores, cresce a avaliação de que algumas pessoas próximas ao prefeito estariam contribuindo mais para o aumento dos conflitos do que para a construção de consensos. Em vez de aproximar o governo dos vereadores, alimentam narrativas e disputas que acabam ampliando o distanciamento político entre o Executivo e sua própria base de sustentação.
Na política, lealdade costuma ser mais valiosa do que elogios constantes. Muitas vezes, um aperto de mão acompanhado de uma crítica sincera vale mais do que o “apoio incondicional” de quem apenas concorda em público, mas pode abandonar o projeto político diante da primeira dificuldade.
Diante de mais um projeto retirado de pauta, surge a necessidade de ampliar o diálogo com todo o parlamento e definir líderes verdadeiros, que terão o respeito e a admiração de seus pares.
