O que aconteceu no Sambão do Povo, na noite de sábado (7), não foi carnaval. Foi política em estado puro. Quem insistir em tratar o episódio como mera coincidência festiva ou excesso de empolgação ignora ou finge ignorar como o poder se comunica quando quer ser compreendido.

O carnaval é, por natureza, o espaço da metáfora. E foi exatamente por meio dela que os prefeitos de Vitória, Lorenzo Pazolini, e de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, escolheram falar. Esperaram o momento certo, entraram juntos na avenida e deixaram uma mensagem impossível de ser disfarçada: existe uma aliança em construção, com ambição real de poder e capacidade concreta de alterar o eixo da sucessão estadual.

O desfile que não estava no roteiro

Nada ali foi espontâneo. Não houve improviso, nem gesto inocente. Foi um ato político cuidadosamente encenado. Quando Pazolini se dirige a Arnaldinho, o encara e afirma que juntos farão um trabalho extraordinário, o recado está dado. Não se trata de amizade institucional, mas de projeto. Não é apenas simpatia, é estratégia.

A fala seguinte aprofunda o corte. Sem citar nomes, expõe o que todos sabem: há alianças que nascem de propósito e outras que se submetem a um centro de poder que corre risco.

E é exatamente aí que o governo Renato Casagrande começa a mostrar sua fragilidade mais profunda. Apesar dos bons índices de avaliação, do carisma do governador e das relações, o projeto político está visivelmente em risco. A limitação no acolhimento de lideranças, partidos e peças ameaçam agora um projeto que apesar de toda robustez, pode não vencer.

Esse modelo fechado e autocentrado cobra seu preço. Lideranças emergentes, prefeitos bem avaliados e quadros com densidade eleitoral procuram outro campo. Não por ruptura ideológica, mas por acolhimento político. E passam agora a encontrar espaço justamente onde nasce um discurso, gesto e disposição de confronto.

Ao afirmar que pretende escrever uma nova história, respeitando o passado, Pazolini faz mais do que uma promessa: lança um desafio direto ao grupo que governa o Espírito Santo há anos. A mensagem é clara, o tempo da tutela política está perto do fim.

O Sambão do Povo não foi palco de festa, mas de anúncio. Ali se inaugurou, de forma pública e simbólica, um duelo político que o Palácio Anchieta ainda parece relutar em admitir, mas que já corre solto nos bastidores.

O aviso foi dado

O movimento de Pazolini e Arnaldinho obriga o bloco governista, especialmente Casagrande e Ferraço a sair da zona de conforto. Não há mais espaço para candidatura automática, nem para alianças construídas por inércia. O tabuleiro mudou, e quem não entender isso corre o risco de assistir à disputa do lado de fora.

Depois do episódio no Sambão, o carnaval virou detalhe. O desfile que realmente importou não passou pela apuração das escolas de samba, mas pela leitura política dos fatos. E nessa avenida, o recado foi cristalino.

O carnaval mostrou.
O jogo eleitoral começou.
E começou como todo duelo sério começa: com exposição de forças, teste de nervos e aviso prévio de que não haverá caminhada sem confronto.

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